Caminho de Santiago: experiência que muda a vida

Desde que conheci o Caminho de Santiago, me encantei completamente com a ideia de fazê-lo. Provavelmente pelo desafio. Conhecer os próprios limites, se superar a cada dia. Então esperei o momento oportuno e fiz minhas malas.

O que é o Caminho de Santiago?

O Caminho consiste em percorrer uma longa distância até chegar à cidade espanhola de Santiago de Compostela, na Galícia. As motivações para realizá-lo são diversas.

A maioria das pessoas que conheci o faziam religiosamente, como agradecimento pela cura de uma doença ou como uma forma de retiro espiritual. Mas há os que, como eu, estão em busca de desafios. E ainda os que caminham para se sentirem vivos.

Quando ir e formas de fazer o Caminho

A melhor época para ir é no outono ou na primavera. Isso porque não está tão frio nem tão quente e o caminho é prazeroso, com temperatura bem agradável.

O Caminho de Santiago pode ser feito de diferentes maneiras. É possível fazê-lo a pé ou de bicicleta e existem dezenas de rotas possíveis. Há setas amarelas que mostram a direção a ser seguida. De forma geral, se você andar por 15 minutos sem encontrar uma seta, provavelmente já se perdeu.

O percurso mais famoso é o francês, que começa na cidade de Saint – Jean – Pied – de Port e são, aproximadamente, 800 km até Santiago, percorridos em torno de 30 dias. Mas há as rotas portuguesas, as do norte e centro da Espanha. Na verdade, até da Antártica já foi feito um caminho.

Para ganhar o certificado de peregrino, é necessário realizar o mínimo de 100 km caminhando ou 200 km de bicicleta. Você compra a credencial do peregrino (custa 2 euros) e pega um carimbo em cada lugar visitado. Assim, quando chegar a Santiago, será possível verificar seu ponto de início e o percurso realizado.

Credencial do Peregrino
Minha credencial/passaporte de peregrina

Como é a hospedagem no Caminho?

Há os albergues oficiais do peregrino, que custaram 6 euros a noite em maio de 2017. Todos em que me hospedei tinham internet e água quente. Às 9:00 é preciso liberar os quartos, o que não é um problema já que às 7:00 quase todos os peregrinos já estão caminhando.

Como há um albergue oficial apenas a cada 20 ou 30 km, existem também os alternativos, feitos por pessoas locais. Esses custam em torno de 15 euros e são escolhidos por muitos idosos, o que se explica por terem mais conforto.

Eles também são uma alternativa quando se quer parar antes do planejado e ainda há alguns quilômetros a vencer antes do próximo albergue oficial.

No meu caso, eu fiz meu planejamento de caminhada por dia considerando apenas os albergues oficiais. É importante começar a caminhar cedo para não correr o risco de chegar a um albergue e estar lotado, o que acontece frequentemente. Em uma das cidades, eu peguei a última vaga disponível. Logo aprendi a não dormir mais cinco minutinhos.

Horário de saída e tempo de caminhada por dia

Eu buscava iniciar a caminhada no máximo às 7:00. E chegava nos albergues em torno de 16:00. Andava geralmente 30 km por dia. No primeiro dia, comecei caminhando por 40 minutos e parei para descansar.

No segundo, consegui percorrer uma hora e vinte antes de suar. Ao final, eu já andava por duas horas e meia até perceber que era momento de comer ou sentar um pouco. É maravilhoso sentir a melhora de seu condicionamento físico a cada dia e descobrir sua evolução aos poucos.

Logicamente, cada um conhece o próprio corpo. Eu fazia pausas de 15 ou 20 minutos entre cada caminhada longa. Conhecia pessoas que só paravam por 5 minutos para não esfriar o corpo. Isso não funciona comigo. O importante é respeitar os próprios limites e entender aos poucos o que é melhor para você.

Minha experiência: caminho escolhido, sensações e aprendizados

Caminho Português de Santiago

Eu decidi fazer o Caminho Português por ter paixão por Portugal. Primeiramente, queria conhecer algumas cidades próximas à Viana do Castelo e aproveitei para começar o caminho por lá.

Assim, guardei dois conjuntos de roupa, umas comidas, e um saco de dormir em uma mochila pequena. Também levei um diário, para expressar tudo que eu sentia. Então, comprei a credencial do peregrino e comecei a caminhar no dia seguinte bem cedo.

Eu estava próxima da praia e, apesar de não ser o caminho oficial e não ter setas, fui até lá para andar apreciando a vista. Havia planejado dormir em Caminha e sabia que se eu seguisse o mar, chegaria até lá. Mas não imaginava que a praia terminava em uma floresta com trilha estreita para passar e muitas árvores altas em volta.

Eu percorri quilômetros sem cruzar com ninguém. Cada som da mata eu me preparava para encontrar uma cobra. Mas o medo passava e eu seguia andando. Quando surgiam duas opções de caminho, eu fechava os olhos e me concentrava em escutar o mar.

Então seguia na direção dele. Essa sensação me confortava de uma forma que nunca saberei explicar.

Desde o Caminho, minha ligação com a natureza é quase mágica.

Acabei encontrando uma família polonesa e seguimos o caminho juntos. Eu não tinha mais água, nem comida. Então eles me ensinaram as melhores frutas a levar na caminhada. São aquelas com bastante água dentro, como tangerina.

Aprendi, também, a tradição de dizer “buen camino” toda vez que se encontra um peregrino. E que, ao fazer o Caminho sozinho, toda sua vida passa pela cabeça e você faz muitos questionamentos. Isso gera um incrível autoconhecimento e paz espiritual. Em contrapartida, fazer o Caminho com a família, ou com quem você ama, gera uma conexão inexplicável.

Sensações e aprendizados

Finalmente conseguimos chegar à Caminha, percorrendo 33 quilômetros neste primeiro dia. Logo ficou a lição de não fugir mais das setas e apenas seguir os caminhos oficiais. O dia seguinte foi ainda mais pesado, percorri 39 quilômetros. Desta vez, conheci muitas pessoas pelo caminho e fui presentada com histórias incríveis.

A falta de água fez eu ter alucinação. Nunca senti isso. Nos dias seguintes, minha mochila era só água. E, até hoje, três anos depois, em todo lugar que vou uma garrafa me acompanha.

Em algum momento do dia, meu pé já não sabia mais o que era dor. Era um cansaço nunca experimentado por mim antes. Sentia partes do meu corpo que nem sabia que existiam. Quando você anda 30 km por dia, não sabe quando vai conseguir levantar de novo. Mas você levanta. E caminha. Conhece pessoas e histórias. Então tudo vale a pena.

Outros peregrinos me contaram mais tarde que é válido colocar esparadrapo no pé desde o início da caminhada. E que banho só no fim do dia, para não se ter risco de andar com pé molhado. Tudo isso em prol da prevenção.

Pé pós caminhada
Meu pé após alguns dias de caminhada

Contos do Caminho de Santiago de Compostela

Em outro dia, o responsável pelo albergue nos trancou sem querer e ninguém conseguia encontrar uma forma de sair. A nossa solução foi pular a única janela, com um buraco pequeno e bastante apertada. A maioria dos peregrinos eram maiores de 60 anos. Todos nos ajudamos para seguirmos nossos objetivos. Assim, foi bem interessante o clima de cooperação e, no fim, nos divertimos muito.

Janela do Albergue Caminho de Santiago
Janela do albergue que pulamos

Como eu tinha duas roupas, todos os dias lavava um conjunto e utilizava o outro. Já que não dava tempo de secar, eu andava com a roupa pendurada na mochila. Um dia, choveu granizo. Eu estava no albergue prestes a sair. Não estava nem preparada para chuva, a ideia de granizo me apavorava. Os outros peregrinos tinham capa para a mochila, botas apropriadas, casacos.

Novamente aprendi com a prática o que era necessário. Diante do cenário, me virei. Então amarrei uma camisa na cabeça e comecei a caminhada. Por sorte o tempo melhorou. E ainda fiz um amigo que me deu um casaco térmico. Felizmente conhecemos pessoas incríveis.

Valença Caminho Português de Santiago
Cidade de Valença

A chegada

Ao chegar em Santiago de Compostela, emoção é a maior sensação presente. Isso porque você reencontra amigos que fez pelo caminho e todo seu corpo e mente exalam gratidão. O objetivo inicial era apenas me desafiar mas é inegável a paz espiritual que você sente. Foram 7 dias percorrendo os 191 quilômetros oficiais, além dos muitos não oficiais presentes nos caminhos alternativos.

Certificado Peregrino Caminho de Santiago
Certificado de peregrina

O Caminho mudou minha vida. Então, eternizou-se em minha alma. E no meu corpo.

Minha tatuagem de peregrina

5 comentários em “Caminho de Santiago: experiência que muda a vida”

  1. Que linda essa experiência!!! Agradeço por ter compartilhado e principalmente segmentado seus aprendizados!!

    Com certeza vou seguir quando for pra lá!!

    #viajo #jo #euqueroooo

    1. Joanna Pimentel

      Olá, Nadia. Acho importante deixar a mochila leve, mas levar alguns itens de farmácia como esparadrapo para os pés e remédio para dor, em caso de emergência. Também leve capa de chuva para a mochila se você tiver e invista em calçados bem apropriados.

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