Por que você não deve viver viajando

Valle de Rocas

Ok, dizer que você não deve viver viajando é um título um pouco apelativo, eu confesso.

Primeiramente, não quero convencer ninguém a deixar de viajar, até porque é a vida que eu escolhi para mim e sou apaixonada por ela e pelas minhas escolhas.

Mas esse também não é um texto irônico em que eu vá te dizer “não viaje porque vai cansar de ir a tantas praias” ou “viajar é perigoso porque você pode querer não voltar”.

Aqui eu vou mostrar a realidade de uma nômade digital baseada nas minhas experiências pessoais e em tantos relatos que já ouvi de outros viajantes pelo caminho. Isso da perspectiva de uma pessoa classe média, com claros privilégios e benefícios de escolhas.

Vou dizer o que as redes sociais não mostram, nem as minhas. O lado difícil de um estilo de vida glamourizado, mas que também tem seus problemas, assim como qualquer vida real.

Mas, mesmo assim, eu escolho essa vida todos os dias.

1. A sua vida financeira pode dar uma bambeada

Manter a vida financeira estável quando você vive viajando pode ser complicado.

Mesmo que você tenha um emprego fixo e trabalhe de home office, com um salário garantido todo mês, os seus custos não são fixos. Ter organização e saber lidar com isso nem sempre é fácil.

Quando você está a cada momento em um lugar, tem despesas diferentes de moradia, alimentação e custo de vida em geral em cada mês. Isso dificulta o planejamento financeiro.

Além disso, a maioria das pessoas que conheço com esse estilo de vida não tem emprego fixo. Elas trabalham como freelancer online ou conseguem trabalhos temporários em cada cidade que ficam. Isso gera uma grande oscilação salarial de mês a mês.

Apenas com o tempo a gente aprende a lidar com isso e consegue se organizar para não se enrolar financeiramente.

E outro desafio é cuidar da nossa saúde mental quando o dinheiro não aparece.

2. Você vai se afastar dos seus amigos e se despedir logo dos novos

É claro que você não precisa estar perto dos seus amigos para manter a amizade, ainda mais em tempos de pandemia e relacionamentos virtuais.

Mas quando você vê todo mundo se encontrando em aniversários, formaturas ou até em momentos dolorosos como enterro, o coração aperta.

Talvez você perca a gravidez de uma amiga. Talvez não veja as conquistas profissionais do seu irmão. Ou talvez você esteja distante quando alguém muito próximo adoecer.

Tudo isso é difícil de lidar, mas faz parte das nossas escolhas.

Por outro lado, você conhece gente nova quase todos os dias. E vai se deparar com pessoas tão parecidas com você e tão incríveis que só vai conseguir agradecer por esses encontros.

Porém, criar laços profundos pode ser mais difícil porque com a mesma rapidez que as pessoas aparecem na sua vida, elas também saem.

Eu já perdi a conta das vezes que estive com pessoas por menos de uma semana e queria tê-las por perto a minha vida inteira.

3. Passar perrengue vai fazer parte do seu dia a dia

Sempre que me pedem para contar um perrengue, eu dou uma travada. Acho que é porque já estou tão acostumada com os perrengues no meu dia a dia que eles já fazem parte da minha rotina e eu nem me incomodo mais.

Passar meses compartilhando quarto e banheiro com outras pessoas, esperar por horas uma carona ou um ônibus que passa uma vez no dia, trabalhar sem internet boa e em espaços barulhentos.

Se você está acostumado com conforto e se incomoda com esse tipo de coisa, provavelmente não vai gostar de viajar a longo prazo.

É claro que estou falando da minha realidade e a da maioria dos viajantes que encontro – pessoas classe média baixa. Se você tem uma vida financeira boa, consegue pagar um aluguel só para você ou contratar um transfer para te levar aos lugares, por exemplo. Então isso não será um problema.

E se a sua situação financeira for complicada, precisando ajudar outras pessoas em casa ou não tendo nenhuma reserva, então viver viajando, provavelmente, não é nem uma opção.

A realidade é que dizer que qualquer pessoa pode viver viajando é uma fala um pouco irresponsável e sem consciência de classe.

4. É difícil trabalhar sem uma rotina fixa e em ambientes não propícios

Para um trabalho ser bem feito, faz toda a diferença estar em um ambiente confortável, com boa iluminação, temperatura e silêncio.

Mas, isso raramente acontece da maneira certa quando você vive viajando.

Se você trabalha online, por exemplo, muitas vezes irá se deparar com uma internet ruim, uma cadeira desconfortável para sentar, um espaço extremamente quente – ou frio. Isso diminui a sua produtividade e você precisa aprender a lidar com esse cenário para manter a qualidade do seu trabalho.

Você também passa por problemas parecidos se for tarólogo, professor de yoga, pintor, cozinheiro. Viver viajando e mudando o seu “escritório” de trabalho é desafiador, e não ter horários fixos também.

5. É muito ruim estar longe da família quando você está doente (ou quando alguém dela fica doente)

Adoecer é um saco. A gente fica fraco, triste e até carente. Quando isso acontece longe das pessoas que mais te amam e fazem tudo por você, ficar doente pode ser bem pior.

Esse é um dos piores momentos para estar longe da família e dos amigos e você poderá contar apenas com você.

É claro que encontramos pessoas iluminadas no caminho que cuidam da gente, mas não é a mesma coisa.

Da mesma forma, alguém bem próximo a você pode adoecer e você estará longe, sem poder ajudar.

Tudo isso se relaciona com o mesmo fator: a importância de cuidarmos da nossa saúde mental para viver viajando de forma saudável – física e mentalmente.

6. Você não vai conseguir fugir dos seus problemas

Essa é uma verdade, principalmente se você viaja sozinho.

Quem nunca ouviu alguém dizer que viaja para se autoconhecer? Esse é um clichê que realmente faz muito sentido e eu vivo isso todos os dias.

Quando você está em um lugar distante e longe de todas as pessoas que conhece, você se reconecta consigo mesmo. Isso faz pensar em escolhas da vida e leva você a enxergar certas situações por outro ângulo.

Assim, você não consegue mais ignorar problemas que deixava de lado na cabeça e acaba confrontando os seus medos mais sinceros.

Isso é positivo, mas é preciso estar preparado para saber lidar com essas questões de forma saudável.

7. Viver se despedindo é doloroso

Já comentei que viver viajando faz a gente conhecer muita gente interessante, mas que elas se despedem muito rápido. Só não sei se deixei claro o quanto isso é doloroso.

No fundo, as pessoas que realmente marcam, você mantém contato e até consegue reencontrar em outras ocasiões.

Já conheci uma menina no Marrocos que viajei com ela por Portugal e depois pelo Brasil. Já me hospedei na casa de um português que eu nem conhecia e, anos depois, o recebi no Rio de Janeiro. Esses e vários outros viajantes que encontrei, consegui reencontrar na minha jornada.

Mas isso não é o suficiente.

Quando você viaja, cria conexões muito fortes e reais. Algumas vezes, você passa semanas morando com a pessoa e se sentem amigas como se se conhecessem há anos.

Em algum momento, vocês vão se despedir. A longo prazo, é um pouco cansativo viver de despedidas.

Então por que eu gosto de viver viajando?

Apesar de todos os pontos acima, eu escolhi viver viajando e amo a vida que levo, principalmente por viajar sozinha. Acredito ser um lugar de constante crescimento e amadurecimento rápido, em que você aprende a lidar com muitas adversidades e se torna, cada vez mais, uma pessoa melhor.

Vale lembrar que eu tenho o privilégio dessa escolha. Ninguém depende de mim financeiramente, eu tenho um trabalho que me permite ganhar o mínimo para me manter na estrada e, se tudo der errado, tenho o lar da casa dos meus pais para voltar.

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